Será que a Fibromialgia tem cura?

Pelo Terapeuta Joaquim Jorge

A maioria das pessoas começa por ter pequenos sinais de dor que vão e vem, como incomodo, outras têm sensação de cansaço, distúrbios de sono, perturbações cognitivas, entre outros sintomas.
Por vezes a pessoa sofre desta patologia durante anos até ser diagnosticada, com Fibromialgia, adiante designada por FM. Atualmente, esta síndrome gera ainda alguma incompreensão, pois a medicina convencional ainda não determinou a sua causa e os exames laboratoriais não apresentam alterações. Outros sintomas associados a esta patologia são dor generalizada, fadiga crónica, ansiedade, depressão e perturbações gastrointestinais.


“Atualmente sabe-se que a Fibromialgia é uma patologia do foro da reumatologia e está associada a uma maior sensibilidade do indivíduo perante um estímulo doloroso. A inclusão desta doença na reumatologia pode ser justificada pelo facto de a fibromialgia envolver músculos, tendões e ligamentos, não envolvendo, no entanto, as articulações, nem comprometendo órgãos internos.
Os seus sintomas podem variar de intensidade, podendo mesmo desaparecer ou diminuir temporariamente para reaparecerem mais tarde. As remissões são raras, embora por vezes existam ligeiras melhorias nomeadamente da dor e da fadiga (...).”

Por: Associação Nacional contra a Fibromialgia e a Fadiga Crónica

A nível mundial, estima-se que entre 2% a 4% da população adulta sofra desta doença, sendo mais frequente nas mulheres que nos homens, com idades entre 30 e 50 anos.

A FM foi reconhecida pela OMS, em 1990, e em 1992 foi considerada como uma doença do foro reumático.
Em 1990 a FM é diagnosticada por exclusão doutras patologias, isto é, por diagnóstico diferencial, e subsequente palpação de determinados pontos denominados pontos dolorosos  (tender-points), utilizado como diagnostico, pelo Colégio Americano de Reumatologia (American College of Rheumatology -  ACR).


Esta patologia tem um efeito devastador na qualidade de vida do paciente. A incompreensão desta doença, por não ter sintomas visíveis, assim como a alternância de sintomas durante o dia, com crises que podem variar de dia para dia ou num espaço de horas, prejudicam a capacidade de trabalho, o desempenho de atividades cotidianas, os relacionamentos familiares e com amigos e, para além disto, existe um aumento dos encargos económicos tanto para o paciente como para a sociedade.
Verifica-se que os pacientes com FM apresentam níveis relativamente baixos do neurotransmissor cerebral, serotonina, o que provoca o aumento de sensibilidade à dor. Este neurotransmissor é responsável por promover um estado mental calmo e relaxado.
Além deste neurotransmissor, a baixa resistência à dor nos pacientes com FM pode ser causada por uma eficácia reduzida das endorfinas naturais do corpo, assim como o aumento dos níveis do neurotransmissor Substância P, que amplifica os sinais de dor.

A abordagem ayurvédica da Fibromialgia

O nome da doença FM não existe em sânscrito, mas quando consultamos os textos antigos há uma doença cuja descrição é semelhante aos sinais e sintomas da FM, nomeadamente, rigidez, contraturas, fadiga, perda de movimentos e distúrbios mentais.
O termo, em sânscrito, para descrever a FM é mamsa dhatugati dushti que tem o significado de doenças que afetam músculos e tendões, bem como mamsavruti Vaata, ou seja, doenças devido ao excesso do dosha Vaata afetam os músculos e tendões.
 No diagnóstico do Ayurveda, esta patologia envolve disfunções em Majja vaha srota (canal que transporta os impulsos do sistema nervoso), mamsa vaha srota (canal responsável por alimentar o sistema muscular) e mamsa dathu agni (metabolismo do sistema muscular). Também se enquadra num subtipo de doença conhecido por vaatavyaadhi (anomalias neuromusculares), embora pitta e kapha também estejam envolvidos.
O dosha vaata pode ser comparado ao maestro da orquestra, uma vez que dirige os impulsos nervosos que estimulam o mamsa dathu (tecido muscular) e regulam o outros dois doshas. O principal causador deste desequilíbrio é o dosha Vaata, mas é uma doença tridoshica, pois os doshas Vaata, Pitta e Kapha estão presentes em todas as estruturas que envolvem mamsa dathu (tecido muscular) ou, em associação com outros dathus (tecidos), manifestam alguma forma de gati (movimento).
A vida é movimento, por isso desde os movimentos peristálticos aos movimentos musculares, todos dependem dos impulsos nervosos e da qualidade da musculatura externa e da musculatura visceral (esfíncteres, artérias, estruturas gastrointestinais). O dosha principal de mamsa dathu é kapha, às vezes também denominado de sleshma.
Sleshma deriva do termo em sânscrito slish, que pode ser traduzido por “manter unido” ou “aderir”, por isso todas as células dos tecidos estão unidas por sleshma kala. Assim, além de manter a coesão de todos os tecidos, dá sthira (estabilidade) e bala (força) ao tecido muscular.
Caraka, num dos seus textos considera que o dosha pitta exerce a sua função através do subdosha sadhaka pitta, localizado no cérebro, que regula as atividades mentais e físicas. Pode dizer-se que este faz a gestão dos neurotransmissores e regula, com precisão, a complexidade dos impulsos nervosos nos músculos. 
Outro fator a ter em conta é o dosha Vaata, que transporta a força vital. O capítulo 13 do Caraka Samhita Sutrasthaana, referencia a importância do dosha Vaata, diz:

Vata é a substância mais subtil do corpo que penetra como força vital em todos os lugares da fisiologia”.

Assim, vaata sustenta a vida, coordena e ativa os órgãos sensoriais e motores.

Tratamento do Ayurveda para a Fibromialgia

Uma das primeiras preocupações do Ayurveda é corrigir a alimentação e a rotina diária do paciente, uma vez que do seu ponto de vista qualquer matéria ingerida (líquida ou sólida) que não é corretamente digerida ou eliminada, compromete a homeostase do corpo.
Para o ayurveda consideram-se, para além dos alimentos, as suas incompatibilidades, o não respeitar os horários das refeições, assim como outros fatores, nomeadamente, stress, choques emocionais e ansiedade, pois estes podem alterar toda a parte enzimática e comprometer a realização da digestão.
Com a alteração do Agni ou metabolismo, existe debilidade e perda da capacidade de transformar os alimentos e as emoções de forma correta, o que por sua vez leva à formação de Ama (toxinas), que se vão acumulando nos tecidos comprometendo o seu funcionamento correto. Com o tempo os tecidos começam a ficar sobrecarregados de toxinas, o que leva à sua deterioração e mau funcionamento, dando espaço ao desenvolvimento da doença. O processo de doença é lento, o corpo vai reagindo e dando sinais, que algo não está bem, como acordar de manhã mais cansado do que se deitou, ou indisposições ligeiras, mas geralmente as pessoas ignoram estes sinais.
O tratamento Ayurvédico, tem especial atenção ao dosha Vaata, para isso utilizamos a terapia shamana ou pacificação, para equilibrar todos os sistemas e estabilizar o sistema nervoso e musculo esquelético.
Numa segunda fase, faz-se a terapia shodhana ou purificação, para retirar ama (toxinas) que se encontra alojada em todos os sistemas, perturbando o seu funcionamento.
A terapia de Panchakarma é o procedimento principal utilizado nesta doença, exceto se o paciente apresentar alguma contraindicação. Estes tratamentos são personalizados para cada pessoa, mas em linhas gerais inclui:
  • Aplicação de óleos medicados, como nirgundi taila, Dhanvantari taila na Abhyanga.
  • Sweda com fitoterápicos, como ningundi.
  • Vamana, a indução do vómito terapêutico, para que toda a matéria e emoções não digeridas que se encontram no estômago sejam expurgadas. 
  • Virechana, é precedido por massagem, sauna e saturação com óleo medicado. Quando se verifica que o paciente está saturado procede-se à diarreia terapêutica, administrando-se uma preparação de forma a provocar a limpeza do intestino.
  • Anuvasana Basti – ou enema medicado com Bilva taila.
  • Nasya, consiste na introdução de substâncias medicinais pelas narinas. Este tratamento atua em todas as patologias do pescoço e da cabeça.
  • Shirodhara com Brahmi taila ou Bala taila.
  • Kalkas (pastas) de sariva, neem e nirgundi, aplicadas localmente.
  • Sansarjana Krama, após os procedimentos de Panchakarma, os pacientes de  devem ter uma dieta de forma a pacificar Vaata, estimular Agni e tonificar o corpo.

A nível alimentar recomendam-se sumos e sopas de vegetais, água de coco e leite de coco, legumes cozidos, como abóbora, curgete, inhame e tomate. As especiarias mais indicadas são cominho, coentro em grão, pimenta preta, gengibre, assa-fétida, alho, erva-doce e açafrão. O kichari simples com 1 parte de arroz basmati branco e ½ parte de mung dal, está também indicado para esta patologia.

Por favor, procure sempre orientação de um profissional de ayurveda qualificado, com certificação ou carteira profissional, para regime individualizado e programação de doses, antes de tomar qualquer fitoterapia ayurvédica.

Existem vários fitoterápicos que podem ajudar nesta patologia, tal como triphala, gusgul, yogaraj guggul, ashwagandha, amalaki, dashamool, guduchi, chyawanprash e curcuma. O alcaçuz é um fitoterápico anti-inflamatório, com ação idêntica à cortisona, mas sem os seus efeitos negativos. Contudo, é necessário ter cuidado, pois ingerir mais de 4 copos por dia pode aumentar a pressão arterial, uma vez que reduz os níveis de potássio, não deve ser ingerido mais do que 7 dias seguidos.

A maioria dos pacientes diagnosticados com FM podem obter melhorias com uma desintoxicação e alimentação adequadas, exercício correto e preparações fitoterápicas Ayurveda.



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